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Valmir Vilmar de Sousa

vevesousa1958@gmail.com

POETIZANDO NO ALÉM



João Batista fora um exímio poeta, porém um autêntico boêmio. Trocara a noite pelo dia por compreender ser esta a melhor forma de se viver. Não tinha compromisso com o trabalho pois seus amigos sempre o supriam com suas necessidades mais prementes. Com isto se gabava a todos que o cobravam por uma atividade que fizesse render alguns trocados para sua sobrevivência. Perdera alguns amigos por estas atitudes desrespeitosas com aqueles que se preocupavam com seu futuro, no entanto nada o abalava, preferindo perder amigos do que mudar seu comportamento. Desta forma levara sua vida ausente de quaisquer objetivos que não fosse a vida boêmia. Conhecera grandes personagens da política local, da mídia e da cultura. Para alguns amigos, ele não passava de uma simples massa de manobra diante de seu inquestionável talento na arte da escrita. Com as mulheres fazia um enorme sucesso tamanho era seu poder de galanteio, encontrando em algumas destas uma forma de sustento. Algumas mulheres comprometidas com seus maridos, criavam situações inusitadas para encontros furtivos. As descompromissadas assumiam abertamente seus relacionamentos causando vez ou outra cenas de ciúme, porém João Batista sempre soubera administrar tais situações. Para com as casadas os relacionamentos aconteciam no anonimato, mesmo porque alguns dos maridos eram seus parceiros de noitadas.

Certa manhã a cidade amanhecera nublada, garoando, um vento Sul trazendo a triste notícia da morte do poeta João Batista. As pessoas pararam de sorrir, as mulheres a lamentar e os amigos a chorar e perguntar: Como aconteceu? Logo o João nosso poeta maior. Aquelas casadas não podendo extravasar sua dor receosas de se delatarem, atiçaram seus maridos a prestarem homenagens colocando seus nomes no rol de amigos íntimos a serem apresentados durante o velório como forma de agradecimento pela “amizade” construída até então. Prontamente foram atendidas por seus pares, estando a tal lista em letras garrafais próximo ao esquife chamando a atenção de quem adentrasse aquela sala mortuária. As pessoas sem nada entenderem o porquê na lista estarem contidas os nomes das “distintas” senhoras casadas sabendo que o falecido fora em toda sua vida um inveterado boêmio. Padre Tomé chegando ao local para seu ofício religioso, a bem da verdade, contrariado por conhecer a vida desregrada do falecido, fora tomado de um susto sem tamanho, ao perceber na lista de homenagens nomes de senhoras assíduas frequentadoras da paróquia como também do confessionário. Sentira-se desconfortável não acreditando no que estava a frente de seus olhos abreviou as exéquias rumando para casa cismado com o que vira refletindo acerca das confissões de suas paroquianas se foram ou não verdadeiras, enfim Deus está vendo tudo, murmurou o velho padre Tomé.

Momentos antes de fecharem o caixão, as senhoras casadas aproveitando-se do momento de consternação debruçam-se sobre o caixão num choro convulsivo diante daquela que seria a última vez que tocariam no corpo de João Batista, souberam disfarçar com maestria alisando seu corpo como que se estivessem a procura de algo perdido que não teriam mais a sua disposição. Porém com muita preocupação e cuidado afim de não provocarem desconfianças entre o povo que se fazia presente em especial seus maridos amigos do falecido. O enterro se inicia com as mulheres a frente do caixão entoando cânticos seguidos das demais pessoas que se acotovelavam na rua estreita que levava ao campo santo.

No dia seguinte algumas destas mulheres seguem para a igreja encomendar uma missa de sétimo dia em favor da alma daquele pobre pecador, argumento que deixa o padre mais intrigado, pois horas antes as solteiras houveram encomendado uma missa para o querido amigo João Batista. Meio a contragosto padre Tomé faz as devidas anotações, afinal aquela doação financeira representava mais uma contribuição para as obras sociais da igreja. Ele como pároco necessitava administrar os bens materiais da igreja, pois sem dinheiro não se faz nada, pensava consigo.

Após a morte de João Batista a cidade nunca mais fora a mesma. Uma tristeza abatera sobre as mulheres, os homens se recolheram em suas casas com suas patroas cada vez mais reticentes em relação a carinhos e afagos. Padre Tomé vira a igreja esvaziar, os donativos mixarem, as despesas aumentarem. A morte do poeta João Batista provocara uma desordem geral na cidade, e há quem diga que num determinado momento o padre, o prefeito, o seu delegado e os maridos sentiram falta do poeta que fora poetizar no além junto a São Pedro, os anjos e querubins deixando na saudade as moças e senhoras bem “casadas” daquela incrível cidade.


Valmir Vilmar de Sousa (Vevê) 15/07/19