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Valmir Vilmar de Sousa

vevesousa1958@gmail.com

MESTRE SALVADOR


 

Mestre Salvador fora um homem de poucas posses, franzino, cabelos longos branqueados que tivera como sina caminhar pela estrada sem destino com o intuito de disseminar a palavra do Pai. Este era seu argumento quando alguém o indagava de sua vida, suas atitudes. Quem o conhecia o chamavam de maluco, outros de vagabundo, outros mesmo de um pobre coitado que não tinha onde cair morto. Todas estas ideias que o tinha para consigo nada o perturbava, pois segundo ele, sabia bem o que estava fazendo. Com seu cajado na mão direita e uma bíblia na mão esquerda, mestre Salvador levava sua vidinha sem maiores compromissos, exceto levar a palavra do Pai aqueles desorientados, errantes e pobres de espíritos. Em alguns lares era bem recebido, respeitado e sempre ofereciam um prato de comida para ele, o que recebiam em troca sua benção pastoral. No entanto a comunidade nunca soubera de seu passado, quem fora, de onde viera, se tinha ou não parentes naquela região, afinal o mestre Salvador num dia chuvoso de muito frio aparecera por aquelas bandas como num passe de mágica. Fora confundido com um meliante que tempos atrás apavorara a comunidade com suas atitudes funestas forçando-o a fugir para local ignorado antes que fosse massacrado pelos homens da região. Chegara a ser preso, no entanto o seu delegado convenceu-se de que não se tratava da mesma pessoa, deixando-o livre para continuar sua pregação. Alguns homens não gostaram muito, porém foram se acostumando com ele e alguns passaram a oferecer emprego, muito educado agradecia a oferta, dizendo não ser o seu propósito trabalhar para o sistema e sim trabalhar para o Pai.

O tempo passara e cada vez mais o mestre Salvador arrebanhara fiéis seguidores em sua maioria mulheres. Tivera a ideia de construir um santuário Mariano no topo de uma montanha, onde o caminho a chegar se fizera íngreme e cansativo para os devotos. Ao ser questionado, sempre falara ser este seu objetivo, construir num lugar de difícil acesso para que aqueles que por lá se dirigissem fizessem sua penitência à Nossa Senhora, sendo assim seus pecados dissipariam no trajeto. A vida sem sacrifício não tem sentido, esta era a palavra de ordem para seus seguidores. Algumas pessoas compreendiam sua metáfora outras nem tanto, porém a romaria fora sempre em quantidade razoável de peregrinos. Lá se instalara, lá ficara, descendo apenas quando seus serviços religiosos eram necessários.

Após algumas semanas de sua ausência na comunidade, umas mulheres resolveram visitá-lo para saber como ele estava de saúde, pois vieram a saber que ele se encontrava meio debilitado sem forças para caminhar. Ao chegarem encontraram a porta da choça entreaberta exalando um cheiro vindo de seu interior nada agradável. Dona Cotinha fora a primeira a adentrar deparando-se com um corpo inerte marcado de hematomas e ferimentos que assustara a pobre da senhora causando um leve desmaio. As outras senhoras que a acompanhavam com o susto correram a acudi-la enquanto a jovem donzela Rosa corre em direção a comunidade em busca de socorro. Após o relato para o seu delegado, este acompanhado de um médico e dois soldados seguem para o local para socorrer dona Cotinha como também averiguar a situação do cadáver. Dona Cotinha já houvera sido amparada pelas demais quando seu delegado acompanhado da jovem e seus assessores chegam ao local. O médico examina a senhoria constatando não passar de um leve susto diante da cena liberando a volta para sua casa com as demais. Seu delegado indaga que todas as presentes estejam no dia seguinte a delegacia para os depoimentos necessários enquanto o médico prepara o corpo a ser transportado até o IML para as devidas averiguações cadavéricas a fim de descobrir o real motivo de óbito daquele corpo estendido no chão.

Após alguns dias o resultado do exame cadavérico acusa ter o corpo sofrido violência com alguns cortes abdominais verdadeiro motivador do óbito. Com os depoimentos em mão inicia-se a investigação acerca do autor do crime. Um falatório corre de boca em boca: quem matou o mestre Salvador? Quem teve a coragem de matar um homem santo? Quem fez aquilo com o pobre coitado? Ninguém tivera resposta para tantas perguntas, nem mesmo o delegado.

Numa noite no boteco de Joaquim entre um carteado e outro, surge um forasteiro a indagar o nome de uma pessoa estranha ao conhecimento dos demais.

- Qual mesmo o nome que o senhor falou, perguntara Ramon sentado a mesa junto aos companheiros de carteado.

- Perguntei se vocês conhecem um tal de Jovelino.

- Jovelino, nunca ouvimos este nome por aqui. Alguém lembra deste Nome? Onde todos respondem negativamente.

- Mal me pergunte, quem é o senhor mesmo? Também nunca o vimos por estas paragens, pergunta Ramon.

- Eu nunca estive por aqui, me chamo Rodolfo sou muito amigo de Jovelino e soube que ele estava por estas bandas.

- Hum, sei não, algo está me cheirando mal, pensara Ramon em silêncio.

O forasteiro pede desculpas por atrapalhar o carteado se despede seguindo a margem direita do rio em direção à saída da cidade. Ao terminar o carteado, Ramon e seus amigos de carta seguem a delegacia para relatar ao delegado a inesperada visita daquele forasteiro. O delegado pede a descrição do forasteiro a fim de investigar, neste momento lembra de que os documentos de mestre Salvador não estavam junto ao corpo. Inicia uma investigação acerca da identidade do defunto fazendo uma varredura no local do crime, após algumas horas de busca encontram sobre o altar atrás da imagem da santa numa caixa de fundo falso os documentos da verdadeira identidade de mestre Salvador. Jovelino da Santa Cruz, seu verdadeiro nome, nascido numa cidade distante mil quilômetros daquela comunidade num dia primeiro de janeiro de 1909. Diante da descoberta o delegado fizera uma acareação onde chegara à conclusão que a pessoa procurada pelo forasteiro se tratava de mestre Salvador, porém uma dúvida o perturbava: quem seria realmente aquele que o procurava? Seria um parente distante? Um amigo ou mesmo o assassino que viera indagar em que pé estava a investigação, mas se o seu raciocínio estivesse correto por que ele voltara ao local do crime em vez de partir sem ser visto ou mesmo pego? Mas o seu faro de detetive dizia que algo mais havia por trás de tudo isto. Com certeza ele iria descobrir o mais rápido possível, do contrário não usaria mais o escudo de delegado da polícia daquela cidade.

Inicia-se a investigação com levantamentos da chegada de mestre Salvador, quando e como ocorrera tal chegada. A metade da comunidade fora chamada a depor acerca dos passos dados por este naquele local. Incrivelmente ninguém tivera informações contundentes que acrescentasse a investigação, pois os mais chegados ao defunto pouco se preocuparam em saber de sua vida pregressa e sim o que ele atualmente fazia, levar a palavra do Pai aos mais carentes sendo considerado um santo para a maioria de seus seguidores. Passados trinta dias do assassinato e nada de descobrir seu assassino. De uma coisa seu delegado tinha certeza, este assassinato não ocorrera por acaso e sim alguma ligação com seu passado, talvez uma dívida, acerto de contas, quem sabe, matutava o homem da lei em seu gabinete diante de fotos, documentos encontrados na choça. Não aparecera nenhum parente a contestar tal fato muito menos para reivindicar herança ou algo parecido.

Quase que desistindo desejando arquivar o processo como um crime sem solução, seu delegado dá a última cartada. Com a posse dos documentos do falecido resolve entrar em contato com seu colega da cidade de origem do mestre Salvador afim de levantar dados para uma possível solução do caso não esquecendo de anexar o nome do dito forasteiro, Rodolfo como contributo da investigação. Uma semana depois chegara as informações requeridas ao seu colega, onde seu delegado descobre tratar-se do falecido ser a mesma pessoa procurada pelo forasteiro. Que o tal mestre Salvador no passado não fora tão santo conforme as pessoas o viam e que ambos tinham uma conta a acertar por isso sua procura pelo Rodolfo, não restara dúvidas que este era o assassino, porém onde encontrá-lo?

As diligências continuaram nas cercanias até que o assassino é encontrado trabalhando numa fazenda da região. Ao aproximar-se do local, Rodolfo percebe o movimento e prepara-se para escapar, no entanto a emboscada fora perfeita não permitira sua fuga. Seu delegado o faz prisioneiro levando-o a sua delegacia para os trâmites legais onde ele confessa o crime contando toda história dele com o mestre Salvador, onde este no passado houvera assassinado um parente seu por engano por brigas de terras e heranças. Para não ser preso nem assassinado, pois Rodolfo o jurara de morte, fugira para aquela comunidade onde viera se esconder travestido de monge itinerante. Mesmo sabedores da verdade seus fiéis seguidores continuaram a admirá-lo como um santo, pois para eles continuava a fazer milagres na região. Seus argumentos era de que houvera se arrependido de seus pecados e perdoados por Deus, afinal quem nunca pecara que atire a primeira pedra argumentavam. Deus na sua infinita bondade perdoa seus filhos pecadores, desde que estes se arrependam verdadeiramente. Para o seu delegado não passavam de uns loucos estes que assim pensavam, no entanto para ele o que mais importava era a solução de mais um caso para o seu currículo policial, afinal estava prestes a se aposentar e não desejava arquivar mais um crime sem solução. E a vida continuou naquela pacata cidade transformando o Santuário em local de peregrinação não somente à Santa mas em especial ao mestre Salvador por seus milagres cada vez mais frequentes. Todos ganharam. A cidade ganhou com o turismo religioso. A irmandade ganhou, pois, coube a ela administrar toda a fonte de renda gerada pelos peregrinos. Milagres de mestre Salvador...

 

Valmir Vilmar de Sousa (Vevê) 27/06/19