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Valmir Vilmar de Sousa

vevesousa1958@gmail.com

FIM DE TARDE



Rene após um dia de muito trabalho em seu atelier resolve dar uma caminhada no entorno da Champs-Elysées afim de encontrar alguém que o acompanhasse no café. Afinal numa sexta-feira fria do inverno parisiense beber um café ou chocolate quente no final de tarde fazia parte de sua rotina especialmente se, sua mesa fosse compartilhada com algum amigo (a) ou fruto de um encontro casual. Após longa caminhada resolve entrar na Deschamps Librairie com o intuito de encontrar um livro recém lançado de seu amigo latino-americano que conhecera quando de sua visita ao Brasil em tempos idos.

Após alguns minutos de procura encontra o tal livro. Dá uma rápida folheada em suas páginas, faz uma breve leitura do perfil do autor, porém percebe ao seu lado uma jovem mulher repetindo sua atitude com um livro em suas mãos por coincidência o mesmo título. Motivo para um início de conversa estendendo-se até o caixa. Após pagarem por suas aquisições, Rene a convida para um café numa cafeteria próximo à livraria. Diante do sim da jovem mulher, ambos seguem conversando amenidades, onde ao chegarem no local o garçom leva o casal à uma mesa reservada no canto esquerdo da cafeteria. Este é o local que Rene costuma ficar, pois oferece uma vista panorâmica de toda extensão da famosa avenida parisiense.

- Ainda não nos apresentamos, me chamo Rene. Sou artista plástico, porém minha menina dos olhos é a pintura de telas. Passo mais tempo no atelier do que propriamente no meu apartamento. Praticamente moro no meu local de trabalho. E você como se chama?

- Me chamo Antoniette. Resido em Montmartre, mas sempre estou por aqui, pois este local me fascina, me trás belas lembranças. Ao contrário de você, não sou artista plástica, mas tenho uma veia artística que herdei de meus pais.

- E que tipo de artista você é? Antes de me responder, vamos deixar as formalidades de lado vamos trocar você por tu, concordas?

- Penso que fica melhor para nos entender. Eu canto em barzinho, escrevo poemas, declamo e admiro muito a pintura, desde que a tela tenha uma bela mensagem a me transmitir. Curto paisagens, um belo corpo feminino ou masculino bem retratado me fascina muito. Mas vamos beber o que mesmo?

- Deixo por tua conta a escolha. Na minha casa a visita é quem manda.

- Ok, não venha me cobrar por minhas escolhas. Olha só que bela carta de vinho se apresenta a nossa frente. Hummm... deixa eu ver. Já escolhi. Première de Figuière Rose, conheces?

- É o meu preferido.

-Tu és muito galanteador, sabia? Mas que coincidência, o rótulo escolhido por mim é o teu preferido. Parece que estou indo bem, não é mesmo?

- Com certeza estás indo muito bem. Creia este é o meu preferido sempre que venho aqui escolho este rótulo. O meu sexto sentido delegou para ti o poder de escolha. Percebo que temos o mesmo paladar para bons vinhos, isto é um sinal que este fim de tarde será longo, pois assim espero.

- Quem sabe. Precisamos nos conhecer melhor....

- Já estamos nos conhecendo. – Um brinde ao nosso encontro!

- Um brinde a novas descobertas!

- Hummmm... gostei. À novas descobertas.

Algum tempo depois, Renê a convida para conhecer seu atelier, meio receosa Anoniette aceita seu convite deixando-o feliz com a afirmativa. Após algumas caminhadas pelo quarteirão, finalmente chegam ao local um pouco molhados, afinal caíra sobre a cidade uma garoa no momento em que saíram da cafeteria. Ao adentrarem no atelier, Antoniette vislumbra-se com tantas telas nas paredes e no chão, sendo que nem todas estavam finalizadas. Porém uma em especial chamara a atenção dela, a que estava no cavalete. Era uma pintura de uma linda mulher, morena, corpo escultural com suas curvas delineadas, seios médios, cabelos longos escondendo seus ombros nus.

- Renê que linda esta tela, já está finalizada?

- Faltam alguns detalhes. É a minha preferida, porém não sei quando vou finalizá-la.

- Porque não sabes? A modelo sumiu?

- Exatamente, ela sumiu e não consigo encontra-la para terminar. Penso que vai ficar assim mesmo.

- É uma pena não terminar esta tela. Mas porque mesmo ela sumiu?

- A bem da verdade não entendi tal sumiço. Sei que na noite anterior ao seu sumiço, nós brigamos por banalidades. Tentei consertar mas foi tarde demais, ela foi e não voltou nunca mais. Tento procura-la mas seu celular sempre está desligado, o telefone de sua casa não atende e é isso. Vou guarda-lo como lembrança de um encontro casual.

- É recente este quadro? Vocês tiveram um caso, o pintor e sua modelo? Isto pode acontecer?

- Digamos que sim, pois conosco aconteceu, mas a priori o artista não deve envolver-se com sua modelo. Confesso que foi bom enquanto durou, cinco meses se passaram e nada de encontrá-la.

- Parece-me que esta morena tocou o teu coração e algo mais não é mesmo?

- Sim tocou mesmo. Mas deixa pra lá. Te trouxe aqui para conheceres meu atelier e o trabalho que me dá prazer. Este é o local onde passo maior tempo do dia conforme te falei na cafeteria.

- Tu dormes aonde, no chão? Não vejo cama nesta sala.

- Vem cá vou te mostrar minha alcova. Aqui temos uma porta secreta que me leva aos meus aposentos. Ninguém sabe, exceto quando alguém resolve passar a noite comigo olhando as estrelas. Está vendo aquela janela? Em noite de luar deixo-a aberta para que a luz inunda o quarto, é maravilhoso participar destes momentos.

- Mas voltando à tela inacabada, que tal dar continuidade à ela nesta noite? Ela se parece muito comigo, não achas?

- Bem o rosto e o cabelo são semelhantes, porém o corpo eu não sei, estás vestida. Não posso continuar o trabalho com minha modelo vestida.

- Onde posso me trocar? Quem sabe mudas de opinião.

- Naquele canto está closet, troque-se e venha aqui para eu avaliar...

- Que tal, me pareço com ela ou não?

- Parecem gêmeas. Teu corpo é idêntico ao dela, tua pele, teus seios. Não acredito no que estou vendo a minha frente. Poucas mudanças serão necessárias.

- Mãos à obra então. Onde fico lado esquerdo ou direito do cavalete?

- Deite-se naquele divã e tente ficar na mesma posição da tela para que eu continue a pintura.

- Está bom assim?

- Vire-se um pouco para a esquerda. A perna esquerda dê uma leve passada sobre a direita. Coloque as mãos sobre os seios.

- Certo. Estou muito vermelha? Afinal nunca servi de modelo para ninguém. Nunca me expus nua para um desconhecido. Estou sentindo um calor no meu corpo, penso que não vou conseguir. Me sinto insegura ao me ver nua perante tua presença.

- Relaxe. No início é normal estas sensações, depois tu vais se familiarizando com a situação. Te imaginas junto ao homem que sempre desejou fazer amor e neste divã estás provocando-o para o mais sublime ato de dois corpos quando se desejam, ter uma noite caliente de sexo, luxúria. Vocês se amando neste divã livres de conceitos e preconceitos.

- Me deixaste arrepiada. Agora mesmo que vai ser difícil.

- Me abrace. Relaxe vou aquece-la para depois continuarmos.

Neste frenesi ambos perdem o controle entregando-se um ao outro sem barreiras. A noite fora curta pois o quarto banhara-se com a luz do luar num consequente gozo de ambos. Antoniette acordara com o raiar do sol enquanto Renê preparava o café para ambos, afinal a noite de amor exigira forças extras, porém saciando-os. Ela veste uma camisa social de Renê afim de cobrir seu belo corpo de pele morena dirigindo-se a mesa para o café matinal que na verdade era quase um almoço pois passara das onze horas em que despertara do sono.

Após o café, um gostoso banho tomaram os dois juntinhos pois precisavam dar continuidade a pintura da tela quase reiniciado na noite anterior. Agora mais integrada ao contexto Antoniette se diz preparada para posar como modelo de seu novo amor prometendo a si mesma não repetir a atitude de sua antecessora. A paixão brotara de seu coração como também brotara de Renê fazendo-o esquecer que outrora fora abandonado por um amor que florescia em seu interior porém sem convicção.  Agora com Antoniette sentia-se  amado, desta vez não permitiria perde-la pois seria sua modelo eterna para seus quadros vindouros. Nova aventura que iniciara num belo final de tarde em Paris.



Valmir Vilmar de Sousa (Vevê) 04/02/19

 

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