Loading

Valmir Vilmar de Sousa

vevesousa1958@gmail.com

DONA ESTIMOSA


Dona Estimosa, assim ela era conhecida por toda a vizinhança. Mulher culta, bondosa, querida em sua comunidade. Todo dia acordava cedo, tomava o ônibus seguindo para o Hospital Caritas, já pensando em seus pacientes. Todos os seus colegas a adoravam pela sua simplicidade e simpatia em atendê-los sem distinção de poder aquisitivo, cor, sexo ou mesmo religião. Sua chegada contagiava à todas pessoas presentes. Uma piada, um causo, uma fofoca tornavam o dia dos pacientes mais alegre.

Certo dia uma nuvem escura surge no ar deixando todos em polvorosa, exigindo mais cautela em sua rotina, apesar de que algumas pessoas não compreenderam o que estava para acontecer, dona Estimosa percebeu e junto a um grupo de companheiros do seu trabalho puseram-se a trabalhar com mais afinco. As atenções voltaram-se para esta nuvem escura com o intuito de amenizar a dor como também orientar a comunidade dos riscos a que estavam sujeitos. Os plantões aumentaram em suas horas trabalhadas pois os pacientes necessitavam maior atenção. Os cuidados com a assepsia dos locais, alimentação se fizeram essenciais diante de uma situação sui generis.

O coração de dona Estimosa dizia não ser suficiente um atendimento material, mas uma palavra de carinho e amor seria a melhor solução para tal situação. Melhor dizendo, para ela, era rotineiro este procedimento para com seus pacientes o que justificava o carinho recebido de todos. Ela encarava sua profissão como um sacerdócio por isso sua dedicação total. Apesar de em alguns momentos não ser compreendida por seus pares, dona Estimosa continuava sua vida atendendo a tudo e a todos.

Certo dia, dona Estimosa acordara com uma tosse muito forte, dor de cabeça, um pouco tonta. Com cuidado levantou-se da cama, esquentou o café, mas não aguentara e teve de voltar para a cama. Seus vizinhos notaram a sua ausência no ponto de ônibus, pois todos os dias no mesmo horário, estava dona Estimosa esperando o ônibus da linha 65 em direção ao seu trabalho. Dona Francisca, vizinha de porta, resolve ligar para o seu celular a fim de saber o que estava ocorrendo. Ela atende com muito esforço, diz estar acamada pedindo sua ajuda, se pudesse vir à sua casa a porta estava encostada, mas que viesse protegida. Chegando em sua casa, dona Francisca percebe a situação dela, liga para o Samu a fim de atendê-la com urgência, pois a situação não era nada agradável. O socorro chega à casa de dona Estimosa levando-a para a emergência e dona Francisca acompanha de táxi até o Hospital, local de trabalho de dona Estimosa.

Passada algumas horas, doutor Serafim, seu colega de trabalho informa a dona Francisca de que ela ficaria internada visto que seu quadro clínico inspirava cuidados. Pediu que ela fosse ao laboratório fazer pequenos exames, pois segundo seu relato, ela fora a última pessoa a ter contato com a paciente. Preocupada com a situação atende o pedido do médico enquanto na emergência os colegas de enfermagem de dona Estimosa a entubavam com o intuito de preservar a sua vida. Todos sabiam que ela não tinha parentes próximo, era uma mulher solitária, mas com muita vontade de viver.

Após uma semana internada na UTI, dona Estimosa perde a luta para aquela nuvem escura que surgira de mansinho e sorrateiramente vai deixando suas pegadas e garras por onde passa. Sua voracidade por demais egoísta, vai ceifando vidas sem distinção. Do morador de um humilde barraco até um rei no seu suntuoso palacete. Cristãos, judeus, ateus, anarquistas, comunistas, idealista e todos os istas são tratados como seus algozes. E dona Estimosa que tanto se empenhara em salvar vidas e orientando as pessoas a se cuidarem, ficarem atentas a esta nuvem escura que surgira sem avisar, mesmo que em alguns momentos fora motivo de chacota daqueles que diziam ser apenas uma nuvem passageira, fora sua vítima. E agora, o que faremos, perguntavam para si aqueles que conviveram com dona Estimosa.

Alguns respondiam: vamos ter mais cuidados. Outros diziam: é... não ouvimos dona Estimosa, tanto que ela nos falou. Se tivéssemos ouvido, quem sabe muitos de nossos queridos estariam conosco. Um rei falou: eu sou imune nada vai me acontecer, outro pensou: minha fé me protege. Uma criança sorriu, brincou, partiu. E a nuvem escura continua espalhando medo, insegurança e terror. E dona Estimosa, continua a ser ouvida de onde ela está? Eis a questão. Vamos fazer a nossa parte?

 Valmir Vilmar de Sousa (Vevê) 04/12/20