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Valmir Vilmar de Sousa

vevesousa1958@gmail.com

AS FANTASIAS DE SEU FARIAS



O seu Farias fora um senhor de meia idade pescador das bandas de Enseada de Brito. Homem honesto, religioso, participara ativamente das atividades da Paróquia Nossa Senhora do Rosário. Vez ou outra colocava seu barco na água rumando para a capital aportando no Cais do Rita Maria, onde sempre encontrava alguns amigos para prosear, colocar as fofocas” em dia, pois apesar de ser semianalfabeto gostava sempre de estar informado do que acontecia na capital e arredores. Numa destas conversas soubera que iriam aterrar uma certa quantidade do mar para que a cidade pudesse “oferecer” mais espaço em sua zona central, afinal a velha Desterro não poderia permanecer uma cidade provinciana em pleno século 20 enquanto que outras já despontavam para um crescimento social, político e porque não dizer intelectual?

Esta notícia bombástica pegara seu Farias desprevenido deixando-o por um momento desconectado da realidade. Mas quem tem amigo não está só, e ele fora amparado por alguns amigos que estavam ao redor da mesa do bar entre uma cerveja e outra. Caíra num choro compulsivo num misto de tristeza e revolta para com os dirigentes da cidade que permitiram tal despautério. Levantara-se da mesa e num impulso emocional inicia uma série de questionamentos diante dos presentes sem perceber que se encontrava no local representantes da casa legislativa municipal como também estadual.

- Como vai ficar este Cais? Onde os navios vão aportar? A Ilha do Carvão, vai desaparecer para sempre? Tantas vezes fui aquele local. É bonito de ver, olha, olha lá Manequinha, não é lindo de ver? Não consigo imaginar nossa cidade sem a água batendo no Mercado, neste Cais. E o Miramar, também vai desaparecer? Estou confuso com tudo isto. Só falta agora desmontar a nossa ponte Hercílio Luz, eles não são loucos. Minha Rosário não vai acreditar quando eu contar tudinho pra ela, vai me chamar de louco. Tristeza, parece que eu já tô vendo tudo isso enterrado no fundo do mar.

Ao final do dia quando as luzes da cidade substituíam o astro rei, em sua mesa aproxima-se uma linda mulher de cabelos longos escuros, usando um belo vestido branco indagando quem era o seu Farias, pois soubera que o mesmo morava na Enseada de Brito e partiria em poucos minutos. Ao serem apresentados, seu Farias encantara-se com a bela mulher porém não entendera o motivo de tal procura, eis que logo, logo ele vem a saber que a tal mulher desejava uma “carona” no seu barco, pois ela necessitava estar naquela noite na Enseada de Brito afim de visitar uma “parenta” em estado terminal. Num misto de desconfiança e encantamento ele concorda em dar carona deixando claro que ele estava só, significa dizer que somente os dois estariam no barco. A linda mulher concorda plenamente afirmando não temer sua segurança pois estava diante de um homem respeitoso. Esta afirmação dera ao seu Farias munição para que seu ego inflamasse, mas no fundo de seu Ser se escondia uma fagulha de maldade.

Minutos mais tarde, seu barco sai a singrar as águas rumo à Enseada de Brito. Seu Farias no controle do Leme a conversar com a linda mulher. Diante de uma noite de lua cheia onde o clarão permitia uma visão distante, seu Farias perde-se em devaneios diante do cenário que se apresentava. Rememorava os tempos idos quando fazia esta travessia com sua Rosário, que maravilha pensava ele. Em noites de águas calmas ele para seu barco no meio do caminho a contemplar a lua em luxúrias com sua amada. Agora ele só com uma linda mulher bem mais nova é claro, neste barco com esta lua exuberante. De repente seu corpo começa sentir calafrios, uma brisa repentina surge deixando-o confuso, porém esta situação cada vez mais se agrava. Procura manter o controle da situação sem que a “hóspede” percebesse o que estava acontecendo, por isto cessara o diálogo com a mesma evitando olhar para trás afim de não se delatar. Num determinado momento a linda mulher chega ao seu lado inquirindo o que estava acontecendo, pois ela percebera sua alteração comportamental. Seu Farias nega veemente tais percepções, porém o nervosismo é latente naquele pobre homem. As águas até então calmas começam a formar ondas provocando o balanço do barco de uma forma nunca dantes vista e a linda mulher sentada próxima do seu Farias sem expor qualquer preocupação com todo o movimento. De repente as águas voltam a serenar e a linda mulher inicia uma canção deixando o pobre homem mais confuso e nervoso, não aguentando tamanha adrenalina cai desmaiado no piso do barco.

Algumas horas depois o barco é encontrado à deriva por alguns amigos pescadores e seu Farias deitado ao chão num sono profundo. Ao ser acordado levanta-se debatendo e gritando: ela é uma bruxa, uma bruxa, ela me enfeitiçou. Eu vi, eu vi era horripilante, tinha as unhas feito navalha, cabelo feito palha de milho. Ela me enganou, se passou por uma linda mulher. Os amigos sem nada entenderem levaram o seu farias para a beira da praia, chamaram dona Rosário, esta com uma caneca de café amargo e um ramo de ervas inicia um ritual de benzedura para afastar o mal que apoderara de seu Farias. Como benzedeira do local, dona Rosário entendeu o que acontecera com o pobre homem. Para os seus amigos de pesca não passara de uma “fantasia” e “desculpa” com o intuito de amenizar as consequências de uma atitude impensada, pois deveria ter sido uma noite memorável com aquela mulher, afinal só os dois naquele barco, numa sexta-feira 13, noite de lua cheia...


Valmir Vilmar de Sousa (Vevê) 18/03/19