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Valmir Vilmar de Sousa

vevesousa1958@gmail.com

ANDARILHO SOLITÁRIO



Theo, um ser sonhador, andarilho por opção que correra o mundo em busca de conhecimento (ou seria conhecer melhor as pessoas?). Visitara todos os continentes e em cada qual conhecera pessoas, seus costumes, suas crenças, seus sonhos, suas expectativas diante de tais experiências vivenciadas. Percebera que, em cada lugar visitado elas se relacionavam diferentemente umas das outras. Seus projetos pessoais, seus sentimentos para com o outro estavam equivocados, claro que era uma leitura muito particular deste andarilho solitário.

Certa vez chegara a uma festa onde todos fitaram seus olhos em sua direção, pois seu traje simples não era digno para aquele ambiente. Uma senhora trajando rico vestido longo levando ao seu pescoço um garboso colar de pérolas, em seus braços pulseiras de pedras preciosas o questiona se não está em lugar errado, visto que suas vestes destoavam dos demais presentes. Ele sem responder, adentra para conhecer melhor o ambiente e percebe uma acirrada disputa de vaidades. Cada qual desejando ser o centro de atenções. Mulheres esnobando-se em detrimento de outras, homens disputando os melhores lugares, outros elevando sua voz para serem ouvidos e percebidos, verdadeiro inferno aquele local. Não sentindo-se bem saíra sem olhar para trás continuando sua caminhada.

Com suas reservas financeiras chegando ao final, resolvera procurar um emprego a fim de reequilibrar suas finanças. Após algumas entrevistas, consegue uma vaga numa multinacional bem-conceituada no mercado. Recebe como função, coordenar um grupo de pessoas no departamento de criação, visto que aquela empresa houvera fechado um contrato milionário com a subsidiária de um banco americano, mas que deveriam entregar os projetos em um curto espaço de tempo. No dia seguinte, Theo dera para cada um dos seus coordenados a tarefa de apresentarem no final daquela semana suas ideias e criações referentes ao propósito do projeto. Fora um festival de ideias apresentadas que muito o agradou, porém percebera disputas acirradas entre os seus a despeito de quem melhor podia apresentar. A atitude dos expositores o deixara preocupado e descontente, pois cada qual desdenhava o trabalho do colega provocando, puxadas de tapete, puxa saquismo, um festival de ciúmes, ganância, cobiça. Diante desta situação inesperada, Theo viu-se forçado adiar o projeto por mais uma semana, enquanto discutia com a direção o caos que abatera na empresa pela incompreensão daqueles que deveriam mostrar os seus talentos, mas que preferiram mostrar o lobo mau que existia dentro de cada um.

Final de expediente, Theo se despede dos colegas, coloca sua mochila no ombro direito, toma o elevador, pois dentro de meia hora o metrô passaria pela estação. Chegando ao andar térreo encontra três dos seus coordenados esperando-o para uma conversa informal. Ele os cumprimenta fazendo sinal de que está sem tempo para conversar, porém eles o cercam com voz alterada riscando os dedos em sua face discutindo e destratando-o. Theo que não imaginava tal atitude de seus colegas de trabalho, questiona-os o porquê de tamanho nervosismo, afinal ele dera mais tempo para que todos repensassem suas ideias e suas atitudes. Talvez eles não houvessem entendido de que se tratava de um trabalho cooperativo e não individual, onde cada um contribuísse com sua criatividade para aquela atividade única. Com olhar fixo em Theo, os três ameaçam surrá-lo, tamanho era o ódio sentido pelo trio, pois argumentavam de que ele houvera proporcionado aquela situação desastrosa. Até a sua chegada, todos conviviam harmoniosamente naquele departamento. Apenas um colega era responsável pela criação, não havia necessidade de disputarem entre si. Com este novo método de trabalho criou-se uma rivalidade no grupo, uma ciumeira danada, desejavam que voltasse como antigamente. Após ouvi-los, Theo promete pensar em cada frase dita e que no dia seguinte faria uma reunião apresentando o próximo passo do projeto a todos os coordenados. Despediu-se rumando para a estação a fim de esperar um novo horário do metrô, pois houvera perdido o anterior em função do encontro indesejado...

Devido o sucesso do projeto, Theo fora convidado a visitar a subsidiária do banco americano a fim de conhecer sua logística no âmbito administrativo. Desejara levar consigo um representante de seus coordenados, mas seu intento fora abortado pela direção geral, visto que um de seus superiores o acompanharia nesta viagem. Malas prontas, seguiram para o aeroporto a fim de embarcarem no voo das vinte e duas horas. Chegando ao destino, foram apresentados pelo gerente comercial daquela instituição bancária e levados a uma sala repleta de pessoas ocupadas com suas tarefas. A todos foram apresentados como os responsáveis pelo novo projeto de trabalho implantado naquele departamento e que a presença deles consistia num acompanhamento das atividades daquele grupo seleto. Após as apresentações fora oferecido um coffee break a todos os presentes. Ficara definido que permaneceriam na empresa por uma semana para os devidos ajustes. No dia seguinte, os dois iniciam as atividades com os demais daquele departamento, orientando, corrigindo o que era necessário e o mais importante, analisar a dinâmica do grupo. Theo, percebera que um pequeno grupo não se esforçava para um bom desempenho das tarefas. Algumas pessoas faziam corpo mole, atrasavam seus passos, outras se escondiam no banheiro, outras ainda tinham a ousadia de ficarem atrelados aos computadores e celulares com assuntos aleatórios aos propósitos da empresa. Estas situações preguiçais deixara-o chateado, porém estava fora de seu alcance interferir naquele grupo. Em sua avaliação, colocara para os interessados o que deveria ser corrigido e o que deveria ser mantido para que o sucesso do programa continuasse a ocorrer positivamente. Na semana seguinte os dois voltam para casa com sentimento de dever cumprido.

Tempos depois, Theo se desligara da empresa continuando suas andanças por esta orbe. Chegara numa cidade rica onde a opulência era a moeda corrente, onde todos com seu excessivo apego aos bens materiais esqueciam de que no outro lado da cidade existiam famílias em verdadeira situação de miséria. As famílias abonadas cada vez mais acumulavam riquezas tornando-se prisioneiras de suas mesquinharias. Não dividiam com os seus, se utilizavam de artifícios espúrios para concentrarem mais riquezas, se possível retiravam dos miseráveis o pouco que restavam. Ele percebendo tal situação ficara a refletir: “até quando as pessoas vão se conscientizar de que este não é o caminho correto a seguir”? Porém cabe a cada um refletir o que deseja para si. Ainda tentara trocar ideias com aquele grupo de pessoas abonadas, porém não fora ouvido, estavam preocupados com o seu próprio umbigo. O mundo girava em torno de si, os habitantes do outro lado da cidade que se esforçassem para obterem o mesmo êxito. Eles detinham o poder econômico, poder de mando, os escolhidos, jamais poderiam estar na mesma bandeja da balança. Theo decepcionado com o que vira e vivenciara, saíra a caminhar chutando lata na rua imaginando um dia quem sabe, os homens tivessem compaixão para com seu semelhante.

Restaurante repleto de clientes, mesas todas ocupadas, comerciante feliz com o movimento diário. Theo, sentado num canto exprimido entre uma farta mesa e a quina da parede olhava com atenção o vai e vem dos garçons abastecendo as mesas com os mais variados pratos daquele dia. As pessoas comiam com certa voracidade como se todos tivessem jejuados por várias semanas. Os olhos se arregalavam a cada iguaria servida. Algumas pessoas perdiam a compostura, tanta era a felicidade em sentir o prazer de comer. De sua mesa no canto, através da parede envidraçada, Theo observava um grupo de pessoas, talvez uma família, pois havia adultos, crianças e idosos a recolher migalhas nas cestas de lixo da cidade. Imaginou ser grande a fome daquelas pessoas. Com certeza faltava a elas o pão nosso de cada dia, do contrário não estariam catando restos para suprir suas necessidades primárias: alimentar-se. Aquele quadro dramático que se pintava em sua tela mental, provoca nele uma reflexão acerca da realidade adversa vivenciada entre as quatro paredes daquele restaurante, onde pessoas não se preocupavam com o mundo lá fora. Apenas desejavam com uma gulodice desenfreada saborear os prazeres de uma boa comida sem se afligir com a miserabilidade de outrem. Comovido com a situação, levanta-se da mesa, paga sua conta e sai a procura daquela família com o intuito de acalentá-la, porém, quanto mais caminha, mais situações semelhantes ele vai encontrando na sua trajetória.

Após muitas horas de caminhada, Theo finalmente encontra uma pousada para o seu merecido descanso. Local distante da cidade, frondosas árvores, uma piscina coletiva, chalés distribuídos em forma anelar. Consegue o último chalé disponível, o de número 666. Após um banho reconfortante dirige-se ao centro de eventos, pois naquela noite haveria uma festa em homenagem a Baco, deus do vinho. Ao adentrar percebe luzes coloridas dando brilho ao espaço físico onde homens e mulheres num frenesi se juntam a dançar numa suntuosa pista de dança. Ao redor mesas e sofás convidam os presentes a uma conversa mais íntima sendo ciceroneados por belas mulheres sensualmente vestidas esbanjando simpatia para com todos (as). Numa mesa ao canto, uma linda jovem com seu corpo semicoberto de tatuagem comandava o som daquela noite. Devido o grande número de pessoas naquele espaço, Theo teve dificuldade para encontrar uma mesa vazia, porém num canto esquerdo do salão, encontra uma mesa solitária, como se estivesse esperando por ele. Senta-se e em seguida uma linda jovem morena, sensual, lhe serve uma jarra de vinho acompanhada de uma pequena tábua de frios e um vistoso cacho de uva. Theo agradece a gentileza enquanto observa o comportamento lascivo dos presentes no salão como também na piscina, onde homens e mulheres promoviam rituais bacanálicos. Momentos depois fora convidado a participar da festa, porém alega estar cansado, necessitando de descanso. Agradece o convite saindo em direção ao chalé refletindo a atitude daquelas pessoas...

 

Valmir Vilmar de Sousa (Vevê) 26/04/21