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Valmir Vilmar de Sousa

vevesousa1958@gmail.com

A TEMPESTADE


 

A tempestade chega e com a bonança vai embora. Ela retira telhados, rompe estradas, derruba postes e muros, alaga vilas e cidades. Hoje da sacada de minha casa veio à minha memória tempos de minha infância ao ver a rua onde moro totalmente alagada impedindo um trânsito normal de carros e pedestres. Percebi muitos automóveis desviando seu percurso numa tentativa de vencer a barreira ilhoa que se formara em toda a extensão do meu endereço residencial e adjacências. Alguns motoristas mais corajosos impunham sua vontade de seguir adiante, outros optavam por retornar, no entanto sentiam-se perdidos, afinal a água estava em todos os lugares. Vi mulheres tateando o chão com seus guarda-chuvas com o intuito de desviar de buracos escondidos sob as águas, frutos de tempestades relâmpagos costumeiras em dias de verão tropical.

Na minha infância quando acontecia estas tempestades, era tudo muito maravilhoso, surreal. Da janela da minha humilde casa, vendo a estrada alagada com suas águas barrentas eu me deliciava com a paisagem, evidente que na minha inocência não tinha noção do que tudo aquilo representava para toda a comunidade. Em sua maioria eram privadas de qualquer “luxo”, pois tinham em suas casas somente o mínimo necessário para criarem sua prole. Esta realidade deixava nossos pais apreensivos numa possível perda de seus parcos patrimônios quando estes percebiam água e lama tomarem nossos quintais destruindo o jardim por nós construídos rumando em direção à nossa casa.

Minha vontade era alcançar a rua para tomar banho de chuva, porém nossa mãe nunca permitia pois além de se preocupar com nossa segurança ela ficava apreensiva quanto a quantidade de água concentrada nos arredores. Ela punha-se a rezar para todos os santos acendendo vela para nosso anjo de guarda a fim deles nos protegerem de qualquer mal que pudesse nos acontecer. Vez ou outra ela nos tirava da janela com medo dos raios e relâmpagos vindos do céu. Ela cobria todos os espelhos da casa com lençóis afim destes não atraírem os raios, pois esta era a crença dela como também a maioria da comunidade. Crença herdada de seus antepassados o qual mantinham viva seja consciente ou inconsciente, hoje penso que seria inconsciente.

Ah! Lembranças, lembranças gostosas de minha infância que ficaram guardadas para serem contadas num dia chuvoso, feito hoje...

 

Valmir Vilmar de Sousa (Vevê) 24/01/19