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Valmir Vilmar de Sousa

vevesousa1958@gmail.com

A LENDA DE DONA COTINHA


 

       Reza uma lenda pras bandas do Ribeirão da Ilha, mais precisamente na localidade de Caiacanga que outrora vivera uma simpática senhora conhecida pela alcunha de dona Cotinha. Toda a vizinhança a tratavam carinhosamente por este nome, até que um dia alguém resolvera pergunta seu verdadeiro nome, o que ela prontamente responde:- Eu sou o que vocês conhecem, dona Cotinha, porém algumas pessoas não se convenceram de tal explicação e foram a procura de mais informações, afinal nenhum cristão é batizado com um nome tão estranho, falavam em bocas pequenas, tem algum mistério aí. Esta explicação sem nexo, conforme o pensamento de algumas Marias lavadeiras, forçara alguns homens da comunidade promoverem uma incansável pesquisa “antropológica” acerca da história de dona Cotinha, espécie de CPI comunitária.

      Formada a comissão, eis a questão: quem vai presidir tal comissão? Quem vai secretariar? Quem será o responsável em levantar fundos, afinal haveria despesas para o intento? Discussões calorosas aconteceram nos dias seguintes sem chegarem a um acordo, e sem acordo não seria possível dar continuidade ao processo. Diante deste impasse o qual a comunidade não contava, decidiu-se adiar os planos para o mês seguinte, porém algumas senhoras não concordando com o adiamento promoveram uma espécie de greve junto aos seus maridos deixando-os em polvorosa.

      Dona Cotinha vivia alheia a qualquer movimentação em relação à sua vida. Morava numa casa relativamente pequena, rodeada de frondosas árvores, um lindo pomar tendo ao fundo uma aconchegante cachoeira onde todas manhãs e ao anoitecer banhava-se em suas águas ao som do cantar de pássaros que sempre a visitavam para alegrar o ambiente. O fato de morar sozinha naquele longínquo sítio com a porteira sempre fechada para visitas, despertava a curiosidade de todos criando-se estórias sem fundamento, porém com o aval de quase toda a comunidade. Uns diziam ser uma feiticeira, outros uma bruxa que costumava sair a noite com sua vassoura após o banho da cachoeira. Era normal encontrar pessoas enfeitiçadas, crianças com olhares mórbidos, animais chupados por morcegos definhando nos pastos. Diante de toda esta situação as pessoas remetiam à ela sua culpa, porém recorriam à mesma em busca de benzedura para cura de seus males. Ela atendia a todos os pedidos, desde que estes fossem feitos quando estivesse na comunidade, pois necessitava de tempo para preparar-se “espiritualmente”. Diante desta realidade, a senhoria descia de seu sítio duas vezes por semana para ouvir os reclames das famílias, em hipótese alguma atendia em sua casa, por isto a porteira de seu sítio sempre estivera trancada. Anotava num papel o nome do “enfeitiçado”, seu endereço, seu sintoma em seguida voltava para casa  com a promessa de na sexta-feira seguinte visitar seus consulentes. A hora marcada para a visita era sempre a partir das sete horas da manhã para que houvesse tempo de atender á todos do contrário voltaria na sexta seguinte.

      Passara uma semana e dona Cotinha não fizera sua tradicional visita de costume levantando suspeitas de que a senhoria houvera se cansado dos trabalhos oferecidos, afinal não era mais uma menina, falavam as senhoras e senhoritas da comunidade entre seus familiares. Os homens sempre maliciando, questionavam se a mesma não encontrara um velho rico e fora embora com o mesmo. Afinal, diziam os mesmos, dona Cotinha é um pedaço de mau caminho, apesar de sua idade avançada, 50 anos. As mulheres enciumadas ficavam bravas com seus maridos despertando certa inveja da senhoria. Entre tantos devaneios a respeito de seu destino um grupo de homens “corajosos” resolvem entrar no sítio para uma averiguação dos fatos, encontram a porteira fechada como de sempre. O silêncio no local exceto os latidos dos cães eleva a curiosidade dos homens a ponto de provocar uma disputa de quem teria coragem de invadir o sítio enfrentando a hostilidade canina. Ninguém tivera tal coragem provocando o retorno imediato para suas casas. No dia seguinte uma assembleia para decidir o que fazer e se resolve apelar ao delegado, este recusa-se a uma invasão, pois era necessário a autorização do juiz, como o homem da toga estava ausente da cidade, seu delegado nada pudera fazer.

       Com a insistência das mulheres em manter a tal greve, seu Toquinho, um homem franzino que no passado houvera se curado de um feitiço pelas rezas de dona Cotinha resolve ele mesmo enfrentar os cães e entrar no sítio para averiguar a situação da senhoria. Com muita coragem seu Toquinho pula a cerca dirigindo-se à casa, a medida que tomava terreno os caninos recuavam alforriando sua passagem e pasmem ao chegar a porta da casa, esta encontrava-se entreaberta vindo de seu interior um som semelhante ao choro de uma criança, o que espantara seu Toquinho, afinal nunca soubera que naquela casa havia alguma criança. Num impulso repentino adentra a casa deparando-se com um dos cães deitado na porta do quarto chorando feito uma criança permitindo que o visitante embrenhasse quarto a dentro e encontrasse dona Cotinha deitada em sua cama em um “profundo sono”. A situação daquele momento fizera-o paralisado por alguns instantes, porém corajoso que era segura seu pulso e coloca dois dedos no pescoço atestando que dona Cotinha partira para outras paragens.

       Poucos minutos depois seu Toquinho chega à Vila com a triste notícia provocando um deus nos acuda em toda a comunidade. Mulheres chorando, homens querendo saber como entrara no sítio sem ser molestado pelos “graciosos” cães. A partir daquele momento seu Toquinho fora o escolhido para as devidas tratativas de seu funeral, afinal ela fora uma mulher que vivera sempre só, não tivera descendentes, pois nunca se casara. Diante da decisão comunitária, seu Toquinho resolve conversar primeiramente com o delegado a respeito da liberação do corpo para seu funeral, desta vez o delegado assina os devidos documentos, pois o corpo de um cristão não pode ser abandonado ao léu.

       Salão da comunidade arrumado, coroas de flores nos cantos, grupos de senhoras rezando o terço, crianças brincando ao redor, homens colocando as fofocas em dia, até que alguém pergunta:

       - Não vamos encomendar o corpo? O padre Chico não vem para o enterro?

       Seu toquinho preocupado com a parte burocrática esquecera de conversar com o padre Chico acerca da morte de dona Cotinha. A bela jovem Bebel “mão direita” do padre , ratazana de sacristia, se oferecera a ir conversar com o pároco, pois além de ser devota de Nossa Senhora era sua amiga íntima e com certeza ele não negaria sua benção aquela alma, filha de Deus. Mesmo sabedora de que num passado recente ambos entraram em atrito “forçando” o padre Chico proclamar uma semi- excomunhão por entender que dona Cotinha tinha algo de bruxa.

       Após uma “longa permanência” na casa paroquial, Bebel “convence” padre Chico a estar presente no funeral para a alegria de todos. Pensavam as mulheres e alguns homens, mais uma alma salva dos pecados graças ao desprendimento de Bebel em procurar o padre Chico e sua benevolência para com seus paroquianos.

      Numa sexta-feira 13, uma noite enluarada as pessoas na praça a dançar em volta da fogueira, eis que de repente aparece sob a luz da lua a imagem de uma bruxa montada em sua vassoura acenando para o povo. Quem viu, quem não viu? Algumas mulheres juravam terem visto algo no céu, parecia estar voando. Alguns homens sob efeito do quentão afirmavam terem visto dona Cotinha. E seu padre viu o que? Bem o seu padre estava ocupado em discutir com a Bebel a próxima novena de Nossa Senhora.

 

Valmir Vilmar de Sousa (Vevê) 15/01/19