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Valmir Vilmar de Sousa

vevesousa1958@gmail.com

A CARONA DE SEU VADINHO



Vadinho um jovem agricultor, de segunda à sexta, sua rotina era acordar antes do galo cantar, tomava seu café seguindo para a lavoura enquanto sua companheira cuidava dos animais. Às sexta-feira juntava toda produção colocava em sua carroça puxada pelo seu cavalo baio rumando para a Freguesia de São José afim de comercializar seus produtos na feirinha da praça da Matriz. Este era o dia da semana mais importante para ele, pois além de vender seus produtos, aproveitava para colocar as “fofocas” em dia, visto que sempre havia alguém com “informações” à respeito do dia-a-dia da Freguesia. Algumas senhorias eram suas preferidas para atualizar-se dos fatos. No final do dia estava à par de tudo que acontecera naquela semana como também o que poderia acontecer nos próximos dias, diga-se de passagem raramente errava em seus prognósticos. Claro que ao chegar em casa relatava as “novidades” para sua companheira que a propósito não diferia muito das senhorias da praça, indo à fuxicar com suas comadres os relatos de Vadinho, criando um efeito telefone sem fio espetacular.

Toda primeira sexta-feira de cada mês ocorria uma novena na igreja Matriz e na terceira sexta-feira acontecia na capela Santa Filomena, datas estas preservadas pelo Vadinho, pois o mesmo era um exímio cristão temente à Deus e à igreja. Ao final do dia fechava sua banquinha seguindo para o templo à rezar o rosário entremeados de um português meio arcaico e um latim improvisado. Dizia-se um homem feliz, sem mágoas e culpas. Vivenciava uma religiosidade piedosa sem mácula. Não era assíduo frequentador do confessionário, diferente da maioria que estavam viciados em visitar seu padre naquela capelinha, inclusive sua companheira, atitude que nunca entendera, porque uma “santa” mulher necessita confessar-se? Deixa pra lá, quem sabe ela quer tomar um atalho para chegar mais rápido ao céu, cismava o jovem Vadinho.

Numa determinada sexta-feira próximo ao meio-dia abate-se sobre a cidade um temporal nunca dantes visto, forçando os feirantes e seus clientes abrigarem-se em suas casas, na igreja Matriz, inclusive na delegacia, tamanha era força dos ventos. Esta situação deixara Vadinho muito preocupado, pois sua companheira ficara só naquele “longínquo” sítio. A novena fora cancelada por falta de fiéis, as luzes não se acenderam no cair da noite provocando receios em algumas pessoas de um provável fim do mundo, o jeito fora acender velas e rezar: “Santa Bárbara, que sois mais forte que as torres das fortalezas e a violência dos furacões, fazei que os raios não me atinjam, os trovões não me assustem e o troar dos canhões não me abalem a coragem e a bravura. Ficai sempre ao meu lado {...}. Santa Bárbara rogai por nós”.

O dia fora alcançando sua vigésima terceira hora, a tempestade cessando, momento de Vadinho retornar à sua casa para seu merecido descanso. Despede-se do amigo a quem lhe dera acolhida durante a tormenta rumando ao seu destino. No caminho para casa algumas preocupações vieram à sua mente mas logo esquecera, afinal ele desejava chegar em casa o mais breve possível abraçar a sua amada e confortá-la em seu ninho. A certa distância avista uma pessoa parada na beira da estrada, logo breca sua carroça percebendo ser uma mulher de meia idade. Educadamente indaga o que ela está fazendo sozinha aquela hora da noite após uma tempestade, o que logo a mulher responde estar perdida, a única certeza que tem é que ela mora ao lado da capela São João Batista em Forquilhas. Sendo um homem “piedoso”, Vadinho oferece uma carona para a pobre mulher já que a dita capela está no caminho de seu sítio. Prontamente a mulher aceita a carona. Dizendo estar muito cansada, indaga ao piedoso homem se ela pode ir deitada na carroça afim de descansar seu corpo alquebrado, pedido aceito, ambos seguem seus destinos.

A mulher deitada sob o piso da carroça trajando um vestido lilás, trazia pendurado ao seu pescoço um reluzente crucifixo, cena que despertara certa apreensão de Vadinho toda vez que este mirava aquele corpo “descansando” em sua rabeira. Um ensaio de pânico aflorou-se, logo lembrou-se do rosário em seu bolso iniciando uma reza de terço mentalmente, pois não desejava acordar sua carona mostrando fraqueza à uma “pobre” mulher. A viagem seguira tranquila, ao se aproximarem da capela a mulher acorda e percebendo o susto de Vadinho se desculpa agradecendo pela carona. Vadinho se oferece acompanha-la à sua casa, porém ela agradece sua gentileza apontando para os fundos da igreja sua morada. Ao perceber o local indicado um arrepio perpassa todo seu espinhal deixando-o inerte por alguns minutos, tempo suficiente para que a mulher adentrasse o portão do campo santo desaparecendo entre suas construções. Continuando seu percurso até sua casa chegara pensar estar sonhando no entanto ao se beliscar percebera que não fora um sonho e sim uma experiência que, se contasse à sua companheira ou amigos o chamariam de louco, desvairado. No outro dia nas lides da lavoura ficara a lembrar o rosto daquela mulher e chegara a conclusão que lhe era familiar...



Valmir Vilmar de Sousa (Vevê) 29/03/19